Versão corporativa da ferramenta é paga e promete que dados não serão usados para treinar robô

Até pouco tempo, para analisar e identificar fraudes em quinhentas transações mensais de compra e venda de imóveis, o Grupo Loft contava com uma equipe especializada e tabelas de Excel. O cruzamento de informações era feito manualmente, assim como o reconhecimento de transações suspeitas. Há três meses, os funcionários da área passaram a trabalhar junto com o ChatGPT, inteligência artificial da OpenAI lançada no ano passado.

— Estruturamos os dados e enviamos ao ChatGPT. Ele filtra transações mais suspeitas, e entregamos o material aos analistas que fazem a checagem— conta Marcio Reis, diretor de Inteligência Artificial do Grupo Loft.

Desde que a investigação deixou de ser feita “na mão”, a empresa reduziu em 70% a carga de trabalho da equipe. Entre os objetivos, está a identificação de transações concluídas por fora da plataforma, para clientes ou corretores que querem evitar o pagamento de taxas. Em dois meses, foram recuperados R$ 170 mil em corretagem.

O ChatGPT usado pelo Grupo Loft não é exatamente o mesmo aberto ao público geral. A OpenAI, desde fevereiro deste ano, oferece a empresas uma versão da ferramenta que pode ser integrada a outros sistemas (o que é chamado de API). Isso significa que é possível adotar o “cérebro” por trás do robô de forma personalizada e adaptada para funções específicas dentro das companhias.

Guia para usar o bot

Empresas brasileiras já têm experimentado a versão “corporativa” da IA. O produto, diferentemente da versão mais simples do chatbot, é pago. É também uma das formas com que a OpenAI expande seus lucros — ela é avaliada em US$ 29 bilhões. No mês passado, a empresa deu mais um passo para expandir seus serviços para empresas, com o lançamento do ChatGPT Enterprise, que facilita o acesso “customizado” ao robô.

O uso da API do ChatGPT traz algumas garantias. Uma delas é que as informações compartilhadas não serão usadas para treinar o robô nem acessadas com a OpenAI. A promessa é sigilo. E existe a possibilidade de usar dados do próprio negócio para rodar o robô, o que garante resultados mais acertados.

Na B3, a Bolsa de São Paulo, a equipe de tecnologia começou, em abril, a explorar o potencial desse sistema fechado, primeiro dentro da área de tecnologia, com foco em facilitar a redação de códigos de programação. Não demorou muito para o ChatGPT interno ganhar popularidade em outras áreas, conta Marcos Albino Rodrigues, superintendente de Arquitetura de TI, Governança e Inovação da B3.

— A gente teve que se organizar para criar um programa de adoção com diretrizes para os funcionários. Primeiro elaboramos um guia e depois começamos a implementar um programa de adoção massiva — diz Albino. — O que a gente fala aqui é que ele é um copiloto. Precisa sempre de um ser humano no comando.

O ChatGPT da B3 é alimentado por documentos selecionados pela empresa, como marcos regulatórios do mercado de capitais. Resumir documentos, aprimorar códigos e sugerir respostas para dúvidas externas são alguns dos usos do sistema. Um time multidisciplinar foi criado para fazer uma espécie de “controle de qualidade” do uso da IA.

O próximo passo, que será dado neste semestre, é o lançamento de um chatbot de educação financeira da B3, alimentado pelo ChatGPT. O nome provisório é “Chathub B3”. A ideia é que o sistema funcione como uma espécie de professor de finanças personalizado, que tira dúvidas a partir de dados confiáveis injetadas no sistema pela equipe da Bolsa.

Integração via Microsoft

No caso da B3 e de outras empresas que vêm incluindo o ChatGPT no dia a dia, uma ponte que tem facilitado a adoção da IA é a Microsoft. A empresa investiu recentemente U$ 10 bilhões na OpenAI e oferece a aplicação do GPT a partir do Azure, seu braço de nuvem.

A adesão por meio da Microsoft pode trazer algumas vantagens, diz Frank Meylan, sócio líder de Inteligência Artificial, Cognitiva e Experiência do Cliente da KPMG no Brasil, que fornece uma IA alimentada pelo ChatGPT aos 6 mil funcionários brasileiros.

— É um canal seguro, que conectamos a partir da nuvem privada da KPGM na Microsoft. Temos contratos de confidencialidade com eles, o que nos resguarda de que a empresa não irá acessar as informações que geramos — explica Meylan, que diz que o robô é usado para produzir relatórios, gerar modelos de comunicados em várias línguas e ajudar a preparar equipes para reuniões com clientes.

Nova frente de negócios

Serviços de IA por meio de nuvem já vêm sendo oferecidos pelas grandes empresas de tecnologia há algum tempo, incluindo o Google e a IBM. O lançamento do ChatGPT, no entanto, impulsionou a popularização dos sistemas e deu impulso à OpenAI no setor corporativo. O concorrente Bard, do Google, ainda não tem versão API, por exemplo.

A possibilidade de integrar o robô a ferramentas internas tem levado empresas a criarem seus próprios serviços de tecnologia com o ChatGPT. Na Actio Software, do Grupo Falconi, o sistema da OpenAI foi acoplado a um software de gestão e treinado para trazer recomendações aos clientes.

— Quando um cliente não atinge uma meta, o ChatGPT, a partir da nossa interface, entra para ajudar a formular um plano de ação. É possível escolher entre duas opções: receber a recomendação nossa feita pela IA ou criar a estratégia do zero — conta Breno Barros, vice-presidente de Tecnologia do Grupo Falconi.

Em empresas que já usam IA para processar dados há algum tempo, a ferramenta tem sido testada para otimizar sistemas. Na Ipsos, empresa de pesquisa de opinião e de mercado, o ChatGPT está em teste dentro de uma ferramenta interna que agrega diferentes IAs. Vinte mil funcionários estão experimentando o modelo.

— São modelos ainda carregados de imperfeições, temos a vantagem de usar vários na mesma plataforma e minimizar esses erros. A informação fica dentro de casa, não é compartilhada para fora — diz Marcos Calliari, CEO da Ipsos no Brasil.

Ele diz que a estratégia é ser “rápido e devagar”. Rápido para testar e mais lentos para adotar, explica.

Riscos e ganhos do uso do IA

O uso do ChatGPT via API, pelas empresas, definitivamente é mais seguro que o uso aberto do chatbot, que já sofreu com casos de vazamento de informações. Mas isso não significa que não há riscos.

Dora Kaufman, professora da pós-graduação de Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP e autora do livro “Desmistificando a Inteligência Artificial”, diz que os sistemas fechados são um “ambiente protegido”. Mas a falta de regulação da IA ainda é um fator de insegurança.

— É um ambiente fechado para as empresas, então os dados teoricamente não se misturam — diz Dora. — Teoricamente, porque, como a tecnologia não é regulada, você não tem auditoria para se certificar disso e para garantir controle desses dados. Não existe nenhum órgão regulando.

Há ainda limitações dos sistemas, em especial na geração de conteúdos, diz. São incoerências e erros cometidos pelas IAs generativas que exigem cautela.

Para Dora, é essencial que, ao incluírem essas ferramentas, as empresas tenham uma “governança de IA”. Isso significa, entre outros pontos, que elas precisam garantir que seus dados estarão em ambiente controlado; que as equipes têm consciência das limitações desses sistemas; e que as vantagens operacionais compensam os riscos.

Um dos riscos do ChatGPT e outras IAs nas empresas pode ser a “terceirização do que é essencial”, diz Andréa Cruz, CEO da SERH1 Consultoria, especializada em gestão de pessoas:

— Criatividade, networking econtato olho no olho não podem ser perdidos.


Fonte: O GLOBO